Mozart Ramos e a falta de Educação: um tapa na mesmice

12 abr

Prof. Roney Signorini
Consultor & Assessor Educacional
signorinironey1@gmail.com

 Mozart Neves Ramos está na praça com  novo livro, muito esperado desde quando deu sinais que o colocara no prelo para deleite dos operadores da educação.

Leva o título Sem Educação não haverá futuroUma radiografia das lições, experiências e demandas deste início de século 21. Só com isso já se tem uma ideia do quilate de pessoa que perdemos ao não ser o indicado para o MEC na formação inicial do atual governo.

Homem sério e reconhecido deixou na abertura do livro a expressão de gratidão, o carinho, a admiração e o respeito a duas mulheres: Milú Villela e Viviane Senna, que dispensam apresentações.

O livro reúne uma coletânea atualizada e ampliada de alguns artigos de opinião publicados nos últimos três anos, sobretudo no Correio Braziliense e na IstoÉ, edição on-line.

Não se pode negar que houve algumas melhoras importantes na Educação brasileira, especialmente no que se refere ao acesso à escola, ao aumento de financiamento público e aos resultados de aprendizagens nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Mas ainda não se conseguiu alfabetizar todas as nossas crianças, e a esperança para virar esse jogo se concentra no enfrentamento duro e inflexível que todos devemos dedicar na aceitação  de proposta das BNCCs (foco de meu próximo artigo. Movimento educacional sem igual, seja pelo volume de gente que movimentou, seja pela qualidade das propostas assimiladas pelo sem número de debates e discussões nas audiências públicas, seja pelos resultados obtidos que evidenciam o que há de melhor e mais atual no campo educacional do Fundamental e Médio.
Para Mozart “No acesso ao Ensino Superior, a outra ponta da Educação, o

País fez avanços importantes pelo viés do setor privado, mas ainda registra um dos percentuais mais baixos de jovens entre 18 e 24 anos nas universidades. Por isso, não foi à toa que o Plano Nacional de Educação (PNE) dedicou uma meta específica a essa questão – a de número 12. Talvez seja essa a meta mais desafiadora do PNE, porque depende de vários fatores para ser alcançada”

O novo mundo do trabalho, por sua vez, exigirá que os jovens sejam capazes de ser criativos, que tenham um pensamento crítico aguçado, que consigam trabalhar de maneira colaborativa, que estejam abertos a novas ideias e que sejam comunicativos, entre outras competências, além daquelas vinculadas estritamente ao domínio dos conteúdos curriculares. Isso significa a oferta de uma Educação que ultrapasse habilidades cognitivas e que os prepare para a vida, o que significa incorporar as chamadas habilidades socioemocionais de maneira intencional ao currículo escolar.

Numa exatidão de colocação, “Nesse novo ambiente puxado pela automação dos processos industriais – o que está sendo chamado de revolução 4.0, com impacto previsto na atividade laboral de 400 milhões de pessoas em todo o mundo, no cenário mais otimista–, torna-se imperativo levar os novos conhecimentos produzidos pela ciência para o chão de escola. Para que nossos alunos tenham assegurado o direito à aprendizagem, é essencial que nossos professores tenham assegurado o direito ao conhecimento.”

Também, nesse ambiente, três palavras são essenciais caso queiramos pensar em uma oferta de Educação para o futuro, e o futuro é agora. São elas: internacionalização, programação e inovação. Por exemplo: nos principais rankings mundiais de universidades, a inovação e a internacionalização vêm ganhando destaque cada vez maior. No que se refere à programação, a busca por profissionais será crescente em todo o planeta.

Por tudo isso, acreditamos que só pela oferta de uma Educação com significado, que dialogue com as novas exigências do mundo atual e futuro, é que o Brasil terá alguma chance de protagonismo mundial.

É Maria  Helena Guimarães de Castro (1) quem está com a palavra:Ao longo de sua brilhante carreira dedicada à Educação, Mozart Neves Ramos tem contribuído para o aprofundamento do debate sobre os mais variados temas, da Educação Infantil ao Ensino Superior, sempre com análises bem fundamentadas e rigor na interpretação de evidências. A trajetória do autor como professor, pesquisador e reitor da Universidade Federal de Pernambuco

(UFPE) certamente lhe permitiu agregar valor às outras funções que exerceu – secretário de Educação de Pernambuco, presidente–executivo do Todos pela Educação e diretor de articulação e inovação do Instituto Ayrton Senna. Ao olhar do professor pesquisador mescla-se uma visão de políticas públicas enriquecida com a experiência de gestor comprometido com a defesa da Educação de qualidade para todos.”
No livro, Mozart destaca quatro grandes temas discutidos para o enfrentamento da agenda prioritária da Educação: o desafio da alfabetização; a questão da equidade e da qualidade do ensino; a formação de professores; e a preparação dos jovens para o mundo do trabalho.

Os temas em destaque abordam problemas persistentes no quadro educacional do País. Embora as avaliações nacionais indiquem tendência de melhoria nos anos iniciais, temos ainda mais de 50% das crianças não alfabetizadas ao final do terceiro ano do Ensino Fundamental e resultados muito insuficientes ao final do nono ano. Mais grave, contudo, é o desempenho dos alunos ao final do Ensino Médio: menos de 10% dos concluintes apresentam resultados adequados em matemática. E de cada cem crianças que ingressam no primeiro ano do Ensino Fundamental,

apenas 59 concluem o nível médio, etapa final da Educação Básica. Em resumo, houve importante esforço de ampliação da matrícula na Educação Infantil, inclusão e universalização do acesso ao Ensino Fundamental, melhoria dos indicadores de fluxo e aumento do número de jovens de 15 a 17 anos matriculados no Ensino Médio, mas nossos alunos não estão aprendendo e observa-se grande desigualdade educacional entre estados, municípios e escolas.

Maria Helena dá destaque ao que julga premente: “Um conjunto de fatores pode explicar tal diagnóstico. Problemas na formação e falta de atratividade na carreira dos professores, desigualdade na oferta e problemas de infraestrutura das escolas, gestão administrativa e pedagógica, entre outras.

Ao examinarmos os resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), observam-se muitos municípios pobres com resultados superiores aos de municípios mais ricos do mesmo porte. Portanto, é possível melhorar a qualidade da Educação com uma boa gestão pedagógica do ensino e estratégias que valorizem as aprendizagens.”
Ao leitor, quase que bastam as considerações de Maria Helena mas a curiosidade belisca e vamos em frente: “Em grande parte dos capítulos, o autor destaca a urgência em assegurar a todos os estudantes o desenvolvimento das novas competências do século 21, mais abrangentes e complexas ao envolverem habilidades socioemocionais,

atitudes e valores, além de conhecimentos disciplinares e interdisciplinares. Destaca também que o novo ambiente escolar requer uma pedagogia mais inovadora e metodologias mais ousadas na experimentação e no uso de tecnologias ainda incipientes em nossas escolas.”

Há unanimidade em que tudo converge  na discussão atual quanto à necessidade de preparar as crianças e jovens para viver um acelerado processo de mudanças, enfrentar desafios sociais e exercer ocupações que ainda não existem. Em um mundo cada vez mais conectado, os estudantes precisam conhecer e apreciar diferentes culturas e visões de mundo. A internet está aí para se usufruir disso.

Afinal, o desenvolvimento das competências cognitivas, emocionais e sociais torna-se essencial para a formação de cidadãos mais flexíveis e com capacidade de adaptação a situações imprevisíveis. E não resta dúvidas que o caminho é único, só esse.
Teóricos e também práticos asseveram que o sucesso da Educação não mais consiste em reproduzir conhecimento, mas sim em aplicar o conhecimento e propor soluções criativas em situações inusitadas. Ainda que existam oposições, radicais, muito conservadores que negam a atualidade.
O grande desafio é fazer com que os alunos aprendam a pensar, a resolver problemas de modo colaborativo, a se comunicar e a ter curiosidade e resiliência, desenvolvendo-se como sujeitos autônomos e responsáveis.
O conceito é da OCDE que prima pelo melhor em conceitos sociais: “O estímulo ao trabalho em equipe, a valores e atitudes como a tolerância, o respeito ao outro e o pluralismo de ideias, assim como a responsabilidade ética e social são aspectos centrais do processo educativo atual.”

A preparação dos jovens para as incertezas futuras do mundo do trabalho depende da relevância das aprendizagens para enfrentar as novas demandas sociais e econômicas.

O grande desafio é como mudar a organização da escola e dos métodos de ensino e aprendizagem, bem como a formação dos professores para desenvolver as competências do século 21. Como transitar do passado recente dividido em disciplinas fragmentadas para um futuro integrado, com ênfase na interdisciplinaridade e na integração de estudantes para promover a aprendizagem colaborativa e contextualizada no mundo real? Como sair do passado hierárquico para um futuro cada vez mais colaborativo?

A produção de inovações estratégicas para o desenvolvimento do País não é mais produto de pessoas que trabalham de maneira isolada, mas depende da capacidade de interação do grupo para desenvolver projetos.

[1]Membro do conselho do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes da

Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (Pisa Governing Board, OECD),foi secretária executiva do Ministério da Educação (MEC), secretária municipal de Educação de Campinas (SP) e presidente nacional da União dos Dirigentes Municipais

de Educação (Undime).