As universidades terão que repensar seu propósito

3 maio

Prof. Roney Signorini
Consultor & Assessor Educacional
signorinironey1@gmail.com

 

De fato, como um experimento mental, é útil contemplar a questão: qual é o propósito e a função da educação superior na era da automação final, uma vez que o trabalho como um conjunto de processos e como uma categoria política desapareceu? 
Michael Peters

Michael Adrian Peters é um filósofo, educador, intelectual público global e uma das figuras mais importantes da filosofia contemporânea da educação. Como muitos educadores críticos de sua geração, Michael acumula experiências  e observações muito pertinentes na classe trabalhadora. Iniciou sua carreira no ensino médio mas depois de sete anos caminhou  para o mundo da academia.

Para ele, hoje, devemos a tudo aprender considerando a Era da Razão Digital, dos futuros educativos, repensando a teoria e a prática.
Em um de seus últimos artigos, publicado neste mês, com o título Em tempos de Inteligência Artificial, as universidades precisarão repensar seu propósito, Michael é enfático ao afirmar que  “Os governos e as agências de política mundial têm agora o desemprego tecnológico e o futuro do trabalho em suas agendas políticas. O rápido surgimento da inteligência artificial (IA) e do aprendizado profundo na última década nos pegou de surpresa, tanto em seu desenvolvimento quanto no escopo de suas aplicações.”

As “tecnologias convergentes” – tecnologias nano-bio-info-cogno – no sistema do conhecimento, permeiam umas às outras e impulsionam a visão de um futuro baseado na ciência. Conforme ele, elas têm um impacto acelerado e exercem uma direção determinante no desenvolvimento econômico e cultural.

 

No referido artigo, Michael assoberba em preocupações que se já não estão por aí é questão de pouco tempo para enfrentar os desafios na educação, com pesada carga de incitações em uma sociedade digital futura.
Diz ele que “A universidade digital verá a ascensão da inteligência artificial, aprendizagem profunda (machine learning), robotização, ‘sistemas inteligentes’ na manufatura e estratégias da ‘Indústria 4.0’, às vezes chamada de ‘quarta revolução industrial’, que pressagia o que alguns críticos chamam de mudar para a ‘Sociedade Bioinformacional’.
Em particular, uma nova sinergia tecnocientífica, “tecnologias convergentes”,

nas quais ele aposta muito, conhecida como paradigma “nano-bio-info-cogno”, representa um grande salto para uma nova etapa da economia do conhecimento, compreendendo:
• Nano – O ramo da tecnologia que lida com dimensões e tolerâncias de menos de 100 nanômetros, especialmente a manipulação de átomos e moléculas individuais;
• Bio – A exploração de processos biológicos para fins industriais e outros, especialmente a manipulação genética de microorganismos para a produção de antibióticos, hormônios, etc;
• Info – Novas tecnologias da informação com o desenvolvimento da computação quântica;
• Cogno – Convergência de nano, bio e TI para sensoriamento cerebral remoto e controle da mente.

 

Essas tecnologias convergentes também são chamadas de tecnologias NBIC.

A sigla NBIC remete à nanociênciabiotecnologiatecnologia da informação e ciências cognitivas.

 

O grande salto, em análise, proposto por Michael é exatamente sobre a convergência que sugere reflexões e indagações, por exemplo, “O que acontece quando as tecnologias do século XXI convergem?”  Ele mesmo explica:  a National Science Foundation, nos Estados Unidos, publicou muitos relatórios na última década explorando a convergência das tecnologias NBIC com base em uma nova concepção de unidade da ciência no nível nano que exige unificar a ciência e o ensino superior.
E a propósito, a universidade brasileira está preparada para tal cenário?

Para melhor aclarar, a ciência baseada nos conceitos unificados de matéria em nanoescala fornece uma nova base para a criação de conhecimento, inovação e integração tecnológica. A National Science Foundation avança uma abordagem integrativa para convergir ciência e engenharia em nanoescala, informações e níveis de sistema com um foco nas necessidades e aspirações humanas.

 

Como a sua praia preferida é a educação, sob estarrecimento mas revelador, ele argumenta que na educação precisamos de uma ‘abordagem integrativa’ casada para convergir tecnologias e ciências. Este seria um processo (inovador) liderado pela tecnologia, com um maior foco tecnológico aplicado, baseado na solução de problemas para as necessidades humanas.
Michael deixa claro que o universo de seu trabalho se dá apoiado em três temas principais relacionados: filosofia, economia do conhecimento político, e publicação acadêmica. No primeiro tema, filosofia, ele tem um interesse arraigado em pensadores nem tanto modernos mas também em contemporâneos franceses com os quais tem muita intimidade; transitando pela teoria crítica e escola de Frankfurt, com boia pitada de pragmatismo americano.  No segundo tema, economia do conhecimento político, ele fez recentemente uma trilogia – Imaginação: Três modelos de imaginação na era da economia do conhecimento.
A  sua inquietude também o leva a um grande trabalho sobre o neoliberalismo, vários livros sobre o Ensino Superior e da Universidade incluindo muitas  colaborações. Seu interesse por áreas um tanto áridas constam de sua criação intelectual como a produção de conhecimento social criativa, conhecimento e economias do conhecimento aberto, o capitalismo cibernético e radical política econômica. Finalmente, no terceiro tema, publicação acadêmica, seu foco está em periódicos abertos, revistas, revisão, correções dos colegas de dados grandes e bibliometria.

 

Ele também profetiza conclusões sobre o trabalho, outro campo de sua atuação, cotejando multidisciplinaridade para enunciá-las, dizendo que hoje,

os governos estão lutando para pensar fora da caixa, percebendo que este é um momento diferente de qualquer outro na história e que todos os sinais indicam que o princípio teórico da substituição infinita do capital pelo trabalho chegou às aplicações da IA aos processos de trabalho nas fábricas, escritórios e pesquisa universitária.

A exigida preparação para o “capitalismo inteligente” na manufatura será enorme e nos serviços promete o desaparecimento do trabalho como um fator na produção, de acordo com um cenário que os empregos desaparecerão (“desemprego”).

Um segundo cenário (“híbrido”) antecipa que podemos mudar o futuro e devemos buscar inteligência aumentada em vez de sistemas de aprendizagem autônomos. Isso fornecerá um modelo híbrido com seres humanos firmemente no controle.

Por último cenário (“normal”) deixa claro que é normal que a Inteligência Artificial e os sistemas inteligentes são apenas mais um discurso de tecnologia que irá corroer, mas também criar, alguns empregos.

Todos os três cenários são baseados em modelos de mudança, mas os dois primeiros reconhecem que há algo no trabalho, diferente dos antigos processos industriais lineares de escala e montagem.
Quem viver verá.

 

[1] Dr. Michael A Peters é professor de destaque na faculdade de educação da Universidade Normal de Pequim, na China. Ele é autor, com Petar Jandric, da Universidade Digital: Um Diálogo e Manifesto, publicado por Peter Lang em 2018 e co-editor deEducação e Desemprego Tecnológico a ser publicado pela Springer em 2019.