Desastre Anunciado

17 maio

Conforme O Estadão de 7 último  a região da baixada santista já contabiliza 32 mortos, 46 desaparecidos e milhares de desabrigados e desalojados, quase 87 mil. Por mais extraordinárias que tenham sido as chuvas, os índices mostram a urgência de se rever energicamente os protocolos de contingenciamento, assim como as políticas de habitação em áreas de riscos. Ainda tirando proveito do decálogo de Davos, por primeiro, falta mesmo educação ambiental, pelos desbarrancamentos das encostas comprovadamente, por ignorância sobre infiltrações/drenagens, etc.
Lá como cá e em quaisquer outros locais também atingidos por tempestades, tudo indica que não há governos municipais, que não existem setores e departamentos tecnicamente estruturados para anunciar que chuvas torrenciais se aproximam. Até parece que as autoridades ainda ignoram dezenas de equipamentos modernos, capazes de “enxergar” mudanças climáticas com horas ou dias de antecedência.

E há recorrência nas consequências, com tal grau de dramaticidade que a situação chegou ao limite do insuportável e da irresponsabilidade, quando se ouve dos governos que a população é a grande culpada por não dar destino adequado ao lixo e assim entupir bueiros e bocas de lobo, para não dizer sobre os resultados de riachos avolumando carcaças de carros, sofás descartados, pneus, etc. etc.

Ora, sabemos que não é bem isso mas que os grandes e únicos responsáveis são exatamente os políticos governantes, exímios prometedores junto ao crédulo eleitor. Os executivos municipais não são sequer capazes de cobrar dos subordinados as medidas mais simples, porém eficazes, como varrição contínua e sistemática, desentupimentos preventivos, orientação educacional nas escolas por meio de campanhas. No contrapeso, que as empresas licitadas e contratadas para a execução da limpeza de fato ponham em prática o que foi contratado e que não custa pouco aos cofres públicos, vias indiretas aos contribuintes, alvos de tais calamidades.

No mínimo deveriam ser corresponsabilizados por todas as consequências de tudo que ocorreu em Santos, São Vicente e Guarujá, por igual, e mais além, em outras cidades brasileiras.

O que não isenta os moradores/proprietários que construíram suas casas e apartamentos totalmente fora dos padrões estabelecidos em lei. E diga-se de passagem, em total conluio com as autoridades subornadas, permitindo o uso e ocupação de áreas como encostas e margens de represas.

Como disse o pesquisador Ivan Carlos Maglio, do programa Cidades Globais do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, estes extremos meteorológicos são o “novo normal”. “A gente sabe que isso vai acontecer de novo. Estamos falando de educação preventiva.
Maglio vai direto ao ponto: “Será preciso mais rigor no controle dos assentamentos irregulares. Não é mais possível tolerar o surgimento de novas ocupações, em particular nas áreas de risco. As autoridades não podem transigir.”

Ou seja, impossível que até mesmo uma chuva com força média não propicie esses desastres ambientais e a população deve ser/estar educada para isso.
Frente às ocupações irregulares, já existentes, não é possível resolver e as que virão, impossível evitar. Assim, somos todos reféns uns dos outros. Como certo, logo logo surgirá um imposto “contemplando” a desídia e a irresponsabilidade administrativa do legislativo e executivo municipais que troca um alvará ou habite-se por meia dúzia de votos.

Bem por isso, o Fórum de Davos não se omitiu ressaltando em seu decálogo a atenção especialíssima sobre o meio ambiente, dando destaque que a educação poderia reduzir, senão extinguir, tais males, com boa carga de orientação e instruções. Educação sócio-geográfica mesmo, ao pé da letra.

De volta a Davos, com expressiva interdisciplinaridade com a educação, o  meio ambiente dominou a discussão no Fórum Econômico Mundial . Esteve entre os temas do discurso do representante brasileiro, o ministro da Economia, Paulo Guedes, com participação discutível em razão de sua afirmação contundente,  talvez despropositada, ao dizer que “o pior inimigo do meio ambiente é a pobreza e que as pessoas destroem a natureza porque precisam comer.”

Num evento cujo tema principal é a sustentabilidade, o presidente americano, Trump, anunciou que vai aderir à proposta do Fórum Econômico de plantar um trilhão de árvores no planeta, mas não foi além, omisso num painel sobre como evitar um apocalipse climático. Como bom frasista saiu-se com essa: “Precisamos rejeitar os profetas perenes da destruição”, disse ele.

Dentre tantos posicionamentos, parece mesmo que o Fórum Econômico tem como absoluta certeza que a necessidade prioritária para as relações comerciais é a manutenção, sob rigorosa estabilidade e sustentabilidade das nações, do meio ambiente, sem o que, inexiste comércio e negócios, ou seja, não haverá sobrevivência.

Afora isso, em Davos também foram ofertados muitos alertas sobre a desigualdade. Questão ambiental gerando insustentabilidade.
Conforme Flávio Aguiar[1], a Oxfam (sigla para The Oxford Committee for Famine Relief, uma confederação fundada na Inglaterra em 1942 e que hoje reúne 17 organizações atuando em 94 países) apresentou seu relatório anual sobre a desigualdade ao Fórum, apontando índices dramáticos.
“As 62 pessoas mais ricas do mundo detém tanta riqueza quanto metade da população mundial, cuja estimativa, segundo o The Economista é de 7,4 bilhões de pessoas. 1% da população detém a mesma riqueza que o restante 99%.

Entre 2010 e 2015 a desigualdade aumentou vertiginosamente. Os 50% mais pobres do planeta viram suas posses diminuírem em 41%, apesar do número de habitantes do planeta ser acrescido em 400 milhões de pessoas. Já aqueles 62 mais ricos acresceram seu patrimônio em 500 bilhões de dólares, atingindo a marca de 1,76 trilhões de dólares.”

Estará o Fórum de Davos à altura de tais desafios? Com seu progressivo esvaziamento, o Fórum, que já era pobre em matéria de criação de vetores de ação, ficou mais pobre ainda, o que compromete sua eficácia.

Seria de esperar uma maior eficácia de outros fóruns, como o Fórum Social Mundial, ora reunido, sob forma temática, em seu berço, Porto Alegre.

 Por derradeiro, na sexta-feira, dia 6, o editorial do jornal O Estado de S. Paulo, debaixo do título Catástrofe na Baixada Santista,  finalizou seu posicionamento com : “As vítimas merecem toda assistência e solidariedade possível. Mas para evitar que elas se multipliquem, o governo e a opinião pública precisam estar prontos para adotar medidas extremas, quando necessárias. Isso inclui total intolerância com ocupações em áreas de risco e, em situações de emergência, a evacuação compulsória. Nestes casos excepcionais a compaixão não é permitir a ocupação de imóveis em áreas de risco – é conduzir seus habitantes para áreas seguras.”

Traduzindo, educação em todos os sentidos, não importando para onde se realoque famílias desde que fiquem/estejam em total segurança.

As ribeirinhas a rios, lagos, represas e riachos com transferência urgente dado que criam um grande problema que é o da contaminação/poluição, resultando em milhões de afetados/prejudicados.

Isso tangencia a educação, meio ambiente e desigualdade, três cerejas no bolo de Davos.

 Isso de atenção à desigualdade não é jornal de hoje mas vem sendo abordado, no mínimo há 4 anos, em edições anteriores.

No editorial do jornal El País, de 22/01/17 estava: “Independentemente das opiniões a respeito do encontro anual convocado pelo Fórum Econômico Mundial em Davos, nesse evento são apresentados alguns relatórios que merecem atenção.” Nesta edição, o documento destacou três tendências como as principais ameaças à estabilidade global: a desigualdade econômica, a polarização social e os perigos ambientais.

A grande advertência vinda de Davos diz respeito à extensão da desigualdade. Foi a diretora-gerente do FMI, Lagarde, que recordou sua advertência a esse respeito na edição do ano passado (2016). Os vínculos entre a distribuição desigual de renda e riqueza, por um lado, e a instabilidade social e política, por outro, acentuam as exigências de orientar as políticas econômicas para uma maior proteção dos mais fracos. Isso significa, em primeiro lugar, adequar as políticas a um ambiente econômico ainda influenciado pela seriedade da crise.

Lembrando Millor Fernandes, ele dizia que a ervilha tinha como característica ser mercurial. Ou seja, quem quer garfá-la vai encontrar dificuldade como uma gota de mercúrio que “foge” por qualquer superfície lisa.

[1]Flávio Aguiar é professor, escritor, correspondente internacional, tradutor, organizador e colaborador de dezenas de livros. Vive em Berlin-Alemanha.