Nada será como antes

24 maio

Não é a distância que mede o afastamento.
Antoine de Saint-Exupéry

Destes tempos de reclusão compulsória que o mundo vem enfrentando, uma lição podemos tirar: nada será como antes. Com certeza, lagartas, que se prendem viscosamente a arbustos, vão metamorfosear-se nestes nossos casulos em leves borboletas que ganharão o céu.

O coronavírus veio para acelerar processos, acredito eu. E nesse contexto, vejo como a tela tem sido a “salvação” no isolamento a que esse vírus nos obrigou. São museus abrindo seu acervo para passeios digitais, são streamings franqueando as mais diferentes informações, é uma infinidade de cursos sendo oferecida por plataformas educacionais. Tudo gratuitamente. Eu me pergunto: não está sendo este um momento de cooperação, colaboração e empatia, via tela?

A partir dessa ideia de que, depois do corona, nada será como antes, encontrei na internet interessante matéria na ComputerWorld: “Avanço do coronavírus no Brasil acende alerta para a transformação digital da educação” [1], assinada por Carla Matsu.

Segundo o texto, o Ministério da Educação (MEC) autorizou ensino a distância em cursos presenciais de universidades do sistema federal de ensino e faculdades privadas, além do Colégio Pedro II e Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines) e Instituto Benjamin Constant (IBC). A medida publicada no último dia 18 de março permite substituir, por 30 dias, as disciplinas presenciais por aulas online. Esse período poderá ser prorrogado.

A matéria destaca casos de instituições que se anteciparam a esse surto que estamos enfrentando e já dispõem de uma cultura digital madura, como a LIT (do verbo to light, “aceso” em português), plataforma digital de educação corporativa da Saint Paul Escola de Negócios, que utiliza de ferramentas como big data e inteligência artificial para individualizar/customizar o ensino, e a Le Wagon, escola de programação francesa em formato bootcamp (uma forma de treinamento bastante utilizada pelos times de esportes eletrônicos) e com unidades em São Paulo, Rio de Janeiro e em outras cidades mundo afora.

Todas essas minhas elucubrações encontraram eco na edição 1206 da revista Exame, do dia 1º de abril, que pode ser um divisor de águas entre o antes e o agora.

Na página 35, está uma excelente entrevista com Salim Ismail, indo-canadense e um dos fundadores da Singularity University (universidade de inovação e empreendedorismo), cujo foco são as razões de empresas, governo e academia serem resistentes à inovação.

Inovações demoram anos ou décadas para serem aprovadas, por isso Ismail adverte que, para acelerar esse processo, o primeiro passo é a educação pois é necessário que as lideranças aprendam que estamos em um mundo diferente. É preciso romper com a reticência à inovação na universidade, lembrando que essa instituição não mudou nos últimos 450 anos e a sala de aula não vê novidades há 300. Para ele, os sistemas educacionais são desenhados para treinar os jovens até um pouco mais de 20 anos, com preparo para os empregos existentes, mas o grande problema é não sabermos como e quais serão as ocupações do futuro, daí a dúvida do que ensinar hoje, só nos restando aprendizados sob demanda. Isso exige tempo, espaço e ferramental. Um segredo na caixa de Pandora: como preparar as pessoas para profissões/ocupações que ainda não existem, já que, em tempo, digo eu, as universidades preparam hoje seus alunos com o conhecimento de ontem para um futuro ainda incerto, volúvel, complexo e ambíguo?

A revista, mais à frente, contempla o assunto do momento trazendo aquela condição que parece resolverá muitos problemas, inclusive o de viroses como a que vivenciamos hoje: a distância. Ainda bem que não se fala nisso com relação ao amor!

Até onde sei, o polvo macho é o único animal que faz amor “a distância” por um único dos tentáculos, que excede em tamanho quase um ou dois metros. Aliás, Roger Vadim, cineasta inovador, em 1968, propôs para a linda Barbarella (Jane Fonda), fazer amor com uma… máquina! Genial para a época, século 41.

Voltando à reportagem de capa da revista, elaborada a oito mãos, os jornalistas Ernesto Yoshida, Luisa Granato, Rodrigo Loureiro e Fabiane Stefano estampam o olho: “A pandemia do novo coronavírus forçou o isolamento de pessoas e antecipou hábitos que levariam anos para ganhar escala em áreas como trabalho, educação, saúde, lazer e alimentação. O futuro chegou mais cedo de um jeito trágico – quem sairá ganhando?” A pergunta é só pra incomodar, porque não tem resposta.

Embora tratem o material sob diversos ângulos, dado o nosso foco e interesse, o aconselhável neste espaço é o da educação.

“Parem as aulas, mas não parem de aprender”, essa foi a voz de comando ouvida e lida em toda a China, em razão do coronavírus, com a extraordinária cifra de 240 milhões de crianças e jovens que passaram a aprender de maneira radicalmente diferente.

Todas as escolas foram fechadas sendo colocada em prática a EAD, num esquema e escala jamais vistos por lá ou em qualquer outra parte do mundo, abrangendo do Fundamental ao Superior rotinas incorporadas de todos os tipos de tutorias online, inclusive matemática, inglês, arte e educação física, tudo previamente divulgado por calendário rígido, de manhã até a noite. São perto de 24 mil cursos disponibilizados para o ensino técnico e superior, inciativas que podem se estender até o final de abril. Tudo pela tela, seja do PC, do smartphone, do tablete, seja da TV nos canais estatais.

Conforme os jornalistas, “a rotina dos estudantes chineses é apenas um exemplo do que bilhões de pessoas começam a experimentar mundo afora em razão da necessidade de manter um distanciamento social – ficar longe o suficiente de outras pessoas para evitar a propagação do vírus. A digitalização de vários aspectos da rotina – algo que os futuristas davam como um movimento irrefreável — está sendo acelerada pela pandemia”.

Mais lá do que cá (uma vez que foram os primeiros afetados pelo vírus e, para sua colossal massa de estudantes, já dispunham de maturidade digital, que, infelizmente, ainda estamos longe de atingir), a tecnologia levou para dentro de casa a escola, o trabalho, o abastecimento da geladeira (na China, carros autônomos já estão sendo usados na entrega de comida, remédios e outros produtos; nós, por aqui, ainda dependemos do delivery humano), a ginástica, a sessão de terapia e inúmeras formas de lazer. Tudo para nos manter, através da tela, isolados e seguros.

Antes mesmo da epidemia, a China liderava a aplicação de inteligência artificial na educação e a Squirrel AI, uma das mais bem-sucedidas startups educacionais da China, criou um modelo híbrido que une uma plataforma de inteligência artificial capaz de descobrir as falhas de aprendizado dos estudantes com aulas de reforço presencial nos mais de dois mil centros abertos nos últimos cinco anos. E já se percebe, num cenário mundial de crise econômica, que startups com tecnologias disruptivas vêm atraindo investidores. Como diria Cornella, “las organizaciones no deben estar orientadas desde la oferta, sino desde la demanda. La sociedad reclama nuevas soluciones y las empresas deben responder rapidamente”.

Está aí um nicho de mercado para instituições e professores empreendedores.

“Depois que essa calamidade passar, as escolas e universidades não vão simplesmente guardar numa prateleira os investimentos que fizeram durante a crise. A educação digital vai avançar rapidamente depois da covid-19”, diz Mitchell Stevens, professor de educação digital na Universidade Stanford.

No Brasil, 570 mil alunos do Ensino Médio e do Fundamental 2, já utilizavam a plataforma online Plurall, para fazer exercícios e interação com tutores, por um tempo aproximado de 47 minutos ao dia. Agora, com as aulas suspensas nas mais de três mil escolas que assinam o serviço, a previsão é que esse tempo aumente para 3 a 4 horas diárias.

Ainda segundo a Exame, outros 700 mil alunos do ensino infantil e fundamental passarão a ter pela primeira vez aulas num ambiente virtual. “Será um encontro de uma geração de crianças e adolescentes que já são nativas digitais com professores que ainda estão presos a um modelo analógico de ensino”, diz Mário Ghio, presidente da Somos. “Certamente, quando a crise passar, vamos lidar de forma diferente com a tecnologia na sala de aula.” A legislação, em algum sentido, teria de acompanhar: no Brasil, a plataforma online não pode substituir aulas presenciais, com exceção do período emergencial do coronavírus.

Sem receio de errar, esta pandemia tem feito empresas de diferentes setores mudarem seus negócios, para se adequar à necessidade de isolamento das pessoas para evitar a disseminação e para fazer a roda da economia continuar girando. Porém, e sempre tem um porém, essa nova realidade cria problemas, como salienta a psicóloga Bela Fernandes, da consultoria Aylmer Desenvolvimento Humano: “O novo agora não é o trabalho em casa, mas desempenhar suas funções num ambiente psicológico possivelmente degradado. Vamos aprender muito. Junto com o computador para casa, a pessoa tem de levar maturidade, confiança e um senso de intraempreendedorismo”.

Outro nicho de mercado: empresas especializadas em terapia online vêm registrando aumento significativo por conteúdo relacionado a solidão, depressão e ansiedade, já que muita gente está entrando em parafuso por não poder ir a cinema, restaurantes, bares ou à casa de amigos.

Edward Glaeser, economista, professor da Universidade de Harvard e autor do livro O triunfo das cidades, sustenta que as sociedades prosperam porque as pessoas vivem, trabalham e pensam em conjunto. Se a crise da covid-19 se prolongar, segundo ele, haverá impactos profundos não só na economia, mas sobretudo na inovação, já que o processo criativo depende de pessoas, que, trabalhando juntas em empresas, laboratórios ou universidades, criam soluções, produtos e tecnologia.

Para Glaeser, essa pandemia nos tem obrigado a simular esse processo online, mas há setores produtivos que estão sendo dizimados, como profissionais que trabalham informalmente ou com turismo e lazer, situação que pode aprofundar a desigualdade.

Prato cheio para polarizações políticas quando o momento é de alerta e trabalho conjunto para enfrentar a crise e dela tirar lições para a construção de um mundo mais justo e igualitário.

[1] https://computerworld.com.br/2020/03/22/avanco-do-coronavirus-no-brasil-acende-alerta-para-a-transformacao-digital-da-educacao/